Rui Polanah (ATOR)
Hoje, dez de setembro, acordei sorumbático. Por que, neste mesmo dia, em 1951, Maria Luiza Basso Moura e eu, nos casávamos. Ela com 25 anos. Eu com 23. Era dia do aniversário dela. O pedido de casamento, o noivado, ocorrera a 30 de junho, meu aniversário. Hoje, ela estaria comemorando 82 anos, não tivesse falecido em 10 de março do ano passado. Ontem fui buscar na metalúrgica o porta-copo, única peça que restou dos presentes de casamento. Após o banho de prata ficou novinho em folha. E assim vou levando a vida. Ontem a noite li que Rui Polanah será lembrado, hoje, em missa de sétimo dia, que seus amigos providenciaram, na Igreja Nossa Senhora da Boa Esperança, em Botafogo. Por tudo o que acima escrevi, amanheci triste. Fazer o quê. Rui era uma pessoa muito especial. Ali perto da rua Conde de Irajá, onde ele será lembrado, havia na década de 60 um casarão meio abandonado, no qual moravam atores e atrizes, os sem-teto do cinema novo. O local, em decadência, era amplo. Se os moradores pagavam aluguel devia ser algo simbólico por que todos ali eram durango Kids. Rui Polanah era um deles. Ruy Guerra, Leila Diniz, Joel Barcellos ou eram inquilinos dali ou de outro imóvel das redondezas. Os dois ruis,um com i outro com ipsilone emigraram de Moçambique na mesma época. Polanah cultivava sotaque luso-africano carioca. Sei que ele, excelente cozinheiro, nos convidou para um festival gastronômico. O prato de resistência era de frutos do mar, regado a cachaça, cerveja e refri para as moças: Denise, sua namorada, Nancy, Nelita, Anésia, e não me lembro de quem mais, eram crentes e nunca abusaram do álcool (salve elas). Rui teve outra namorada, jovem mineira, que foi estagiária no “Jornal do Brasil” e depois foi morar na França.
Foi Denise quem me aproximou de Rui Polanah. Ele, desempregado, fazia-se de vendedor de tapetes, em loja da avenida Atlântica. Seu foco sempre foi o cinema. E como é comum, fazia de tudo um pouco. Era um operário do cinema nacional. Atuava como coadjuvante. Participou de muitos filmes. Levava o nosso grupo para as estréias. Acho que sua última aparição foi no filme “Mainá”, o primeiro. Era um companheirão. Culto, educado, respeitador. Morreu. Foi-se. Como todos iremos. Ultimamente morava aqui nas redondezas. Ele no Flamengo, eu nas Laranjeiras. Nosso último contato foi telefônico, há dois anos. Prometíamos nos encontrar para beber e afogar as mágoas. Agora é tarde, muito tarde...
Rubens Nogueira
melancólico