Os pássaros
“A andorinha é símbolo da luz, da fecundidade e da pureza. Ela não pousa no chão,
evitando contato com a sujeira da terra. Simbolizando, assim as almas voltadas para o céu”.
Adélia Maria Woellner – “Para onde vão as andorinhas”- 2002.
Convidada para passar uns tempos com o filho, nora e netos para - na argumentação da família – conhecer pessoas, fazer novos amigos, ela respondeu : “Gracias, já conheci todas as pessoas que queria.” É assim. Chega uma hora em que vem a sensação do “dejà vu”. E não há show, filme, peça teatral ou o que for, capaz de fazer a pessoa deixar o tugúrio. “O mundo não vale o meu lar”, dizia a radialista de antanho. Bom é ficar em paz, observar as nuvens, as montanhas, os pássaros. Atraída pela água, o alpiste, as plantinhas, ela aparece. As plantas poucas: violetas, flor de maio, folhagens, lírio da paz...mas uma florzinha vermelha, conhecida pela alcunha de “mosquitinho” já conquistou uma beija-flor. Como aquela pomba-rôla que tanto me atrai, esta coisinha linda que namoro do meu cantinho, junto à varandinha é também medrosa, arisca, como que travada, incerta quanto aos meus bons propósitos. Oh vida! Na onda envolvente de nostalgia dos anos dourados, da bossa nova saiu no jornal uma notinha dando conta do projeto de Carlo Mossi (aquele do cinema pornô) de filmar no bar “garota de Ipanema” os dias áureos da geração 68. E aí a memória voa, nas azas do doce pássaro da juventude. Já não mais o bar Veloso de Vinícius de Morais e Tom Jobim. Mas a rua ainda era Montenegro. O garotão aqui morava na rua Visconde de Pirajá, esquina dela. Ipanema era só felicidade. A vida, uma festa permanente. Gostoso descer do frescão (ônibus com a novidade – ar condicionado) e ser recebido pelo garçom com um chopinho na mão. Não se usava a expressão, mas era uma happy hour maravilhosa. A certeza de ali encontrar os de sempre: Jorge Leão Teixeira (ele me apresentou ao maestro Jobim, certa segunda feira de setembro, lá por 1974), Dico Wanderley (marido de Suely Costa), dr Miguel Calmon du Pin e Almeida, Cabelinho(apelido de um jornalista da revista “O Cruzeiro”), Fred (arquiteto da equipe de Oscar Niemeyer), comandante Garcia (Marinha), comandante Ribeiro (Panair), Dr. Hélio Saboya, (advogado), Armando Costa, (redator da TV Globo), Aragão, de apelido D. Helder, Armando do Rosário e Hugo Bidê, fotógrafo e cartunista de “O Pasquim”, respectivamente, o economista Ronald Chevalier “Roniquito” para os íntimos, e algumas mulheres: Miucha, de vez em quando, Ângela Rô Rô, pelo menos uma vez, a sobrinha de Burle Marx (morava ao lado esse pecado) e quando adentrava o salão, gloriosa na beleza dos 25 anos, o silencio era gritante, a namorada eterna do comandante Garcia (vinha de Jacarepaguá), a linda e meio riponga Marilia, ex - de Arduino e de Adolfo Celli...e mais, e mais, diria Ibrahim Sued. Dos queridos garçons resta o Arlindo. Havia uma mesa no canto, entre as portas da Prudente de Morais e Montenegro. Nela sentavam-se os velhos da redondeza; bebiam, fumavam e conversavam sobre assuntos que só as paredes entendiam. De quando em quando um desaparecia. Cadê fulano? Morreu! Era chamada, “a mesa do formol”.Quem poderia interpretar essa geração perdida? Por que boa parte deu adeus e foi embora. Um dos mais queridos, Fausto Wolff, há poucos dias.
Rubens Nogueira
ex-garoto de Ipanema