Pessoas especiais
Adalberto Nascimento
Ele tinha jeito de alemão. Mas de um alemão diferente. Geralmente associamos os alemães a pessoas extremamente certinhas, até chatas. Mas ele não. Era um “alemão” sei lá
de que geração, e nem se sabe quando aqui aportaram seus ancestrais. Sabe-se lá de que Alemanha, de que Prússia ou de que Rússia. É essa nossa ignorância genealógica que, talvez, seja o que nos diferencie do resto do mundo, facilitando a nossa enorme miscigenação racial.
Ele se casou com uma brasileirinha, dessas também com ascendentes de todos os cantos do mundo - como em geral todos somos. Suponho que ela tenha sido resultado de uma mistura em que predominavam sangues indígenas e de portugueses. E ela, baixinha, tinha um ciúme enorme do seu “alemãozão”.
Seguia-o, como uma espiã, para verificar se ele não andava de paquera com uma daquelas espanholas ancudas do nosso Além-Ponte. Espanholas que, viúvas e vestidas de preto, ficavam até mais sensuais.
Ele nem se dava conta daquela neurose da baixinha. E, como a maioria dos sorocabanos de então, foi ferroviário. E, nessa profissão digna, ele e a esposa criaram, e, sobretudo, educaram oito filhos - cinco homens e três mulheres. Ele sempre o fez mais falando com o olhar. E o seu
olhar era suave, desse azul claro como o do céu depois de um chuvisqueiro.
No trabalho, ele era reconhecido como um grande “artífice” da Estrada de Ferro Sorocabana. Era o tempo em que trabalhar era também arte. E indo e vindo, por
mais de quarenta anos na “Sorocabana”, com aquele vidrinho azul de leite de magnésia para o café com leite, ele deve ter percorrido, a pé, talvez centenas de quilômetros. Quando chegava em casa trazia aquele odor de honestidade, que ainda lembramos como também característicos dos nossos pais.
E, como numa espécie de sina daquela época, todos os seus filhos foram ferroviários. As filhas, exceto uma, se casaram com ferroviários. E toda aquela filharada casada gerou um montão de netos que, com os pais, iam quase todos os domingos almoçar na “casa da vó”.
Lá só havia alimentos saudáveis. Feijão, arroz, salada, ovo e carne - bovina ou de galinha. Às vezes, uma “leitoinha”
assada. Tudo delicioso. A baixinha caprichava. E as sobremesas inesquecíveis: arroz doce, doce de abóbora, de figo, de laranja.
Depois do almoço, a criançada ia brincar no quintal. E o quintal era um verdadeiro pomar, com mangueiras, pitangueiras, pés de maracujá, de romã. E com muito mais coisas que a criançada de hoje pensa que são de plástico ou geradas em supermercados.
A mulheres, depois de arrumarem a cozinha, ficavam em intermináveis colóquios sobre as coisas da época. Discutiam sobre as novelas da Rádio Nacional ou sobre os filmes da ocasião - do São José, do Caracante,
ou do Eldorado. E muita fofoca, é claro. Não existe reunião desse tipo sem fofoca.
Os homens ficavam jogando baralho, com muita gritaria e risadas. E, depois do café, ao cair da tarde, todos iam embora, deixando aquele casal adorável com seus cães e passarinhos.
Um dia, o filho mais novo daquele “alemão” me contou que na juventude tinha muita bronca do pai. E logo em seguida explicou-me porque a bronca era injustificável. O velho, à guisa de pensão, seqüestrava uma boa parte do salário dos filhos. Isso os deixava irritados. Tinham de trabalhar muito jovens e ainda pagar aquela taxa abusiva. Uma coisa meio nazista por parte do pai. Coisa de alemão, é claro.
Mas a coisa não era bem assim. Aos prantos, o filho concluiu que, quando foi se casar, o seu pai disse: “Vá à Caixa Econômica e tire todo aquele dinheiro seu para o casamento”. Todos os filhos foram submetidos a essa sábia poupança compulsória.
E aquele sábio alemão rezava “vetorialmente”. Ele se ajoelhava diante daquela reprodução de um quadro no qual o coração de Cristo é uma espécie de cofre, dedicando uma reza para cada filho. Fazia isso direcionando as mãos para o suposto local da residência de cada um. Não sei se era um Pai-Nosso ou uma Ave-Maria. Sei que era algo que vinha do seu coração.
Como é inexorável, aquele casal - “o alemão e a baixinha” - ficou velhinho. E,
antevendo o inevitável, foram juntos e várias vezes ao Cemitério da Saudade para orientar a construção do túmulo onde hoje estão. Não queriam, de forma alguma, amolar os filhos “que tinham muito mais coisas para fazer, cuidando dos netos”.
Ele, em idade já bem avançada, acabou ficando muito doente. Fui visitá-lo no antigo Hospital São Severino. A sua maior preocupação era saber se já haviam “acertado” com os médicos e enfermeiros. Morreu dois dias depois de hospitalizado.
Ela, com seu tercinho, faleceu pouco tempo depois. Tal como ele - sem “amolar” ninguém.
Termino esta narrativa com o coração espremido. São lembranças dos meus avós paternos - o vô Paulo e a
vó Isolina. Duas das estrelas do meu céu interior.