
Fala de recepção ao acadêmico Nelson Fonseca Neto
Caríssimos:
"Atualmente,
é difícil lembrar e compreender os sonhos que me enchiam a imaginação. Mesmo
quando os lembro, não consigo acreditar que tenham sido justamente esses os meus
sonhos. Tão estranhos eram eles, tão afastados da vida." Tolstói transmite bem a minha relação com a OSE, escola dos
meus sonhos, dos meus dramas, de meus encontros e desencontros. A vida me
mostrou que as tramas são tecidas e em determinado momento se cruzam e se
completam.
Estou
feliz. "...a estrela cadente/ me
caiu ainda quente/ na palma da mão", diz Leminski, e eu a
aceitei. Volto à OSE para um encontro, uma fala, para a apresentação, na
Academia Sorocabana de Letras, do Neto, que não é mais menino, mas me trouxe
pela mão ao lugar onde me fiz e onde me fizeram. Estou feliz.
Hora
da chegada e Neto sabe, como Leminski, que "nem toda hora/ é obra/ nem
toda obra/ é prima", mas é de rara poesia. Neto é um poeta. Passado
que se faz presente e é um presente para nós. Um poema em construção.
Nelson
Fonseca Neto carrega, em seus ombros, não "o peso do mundo", mas a
saga de uma família que se desdobrou e marcou a cidade de Sorocaba. Sei que o
meu mestre, Wlademir dos Santos, por quem ainda bate
o meu coração de aprendiz (eterna aprendiz), paira por esses ares.
Vou
por Leminski: "meus amigos/ quando me dão a mão/ sempre deixam/ outra
coisa// presença/ olhar/ lembrança/ calor// meus amigos/ quando me dão/ deixam
na minha/ a sua mão." E é claro: eu a peguei. Agarrei a mão do Neto
com força e recebi força; com carinho e recebi carinho e competência. Diálogo
espontâneo. Profundo.
Nelson
Fonseca Neto, tão jovem e envolvido com Pound, Proust, Dostoievski, Tolstói. Gógol, Dante, Machado,
Dalton, Clarice, Shakespeare, Goethe, Cervantes...
Neto
aventura-se compulsivamente chegando a morar nos livros. Envolve-se num
entusiasmo gostoso, divide o seu espaço com todos e é feliz por ver a
felicidade. Neto é Luz Impressa que se espalha, se
esparrama. Envolve e se envolve. Autor e personagem. Leitor sempre. Obra de
arte.
Um
anseio pelo conhecimento e a fruição da conversa com sabor de manga e de
jabuticaba do quintal da OSE e da cor do Ipê. Parece que é Homero, Ovídio, um
cantor provençal, estruturalista, Jakobson, Benjamin, Pound, Valéry...
Todas
as imagens perpassam por suas imagens e é capaz de adentrar no País das
Maravilhas, na Fantástica Fábrica de Chocolate, sabendo que Tim
Burton capta dos livros e reconstrói para a tela. Nova escritura. Outra
linguagem. Magnífico entendimento. Admirável loucura da criação.
"Por
que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as 1001 noites no livro
das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor de
Quixote e Hamlet espectador de Hamlet? Creio ter dado com a causa: tais
inversões sugerem que, se as personagens de uma ficção podem ser leitoras ou
espectadoras, nós, seus leitores ou espectadores, podemos ser fictícios. Em
1833, Carlyle observou que a história universal é um
infinito livro sagrado que todos os homens escrevem e leem
e procuram entender, e no qual também eles são escritos."
Tenho
certeza de que as palavras de Borges apontam para outras formas de análise que transcendem
o texto. Nelson Fonseca Neto sabe o caminho que o leva ao infinito livro
sagrado escrito pela humanidade sobre a humanidade.
Neto, inscreva-se nele. Inscreva-se na vida. Palavras e imagens
acontecerão.
Obrigada,
por estar conosco.
Myrna
22/04/2010
5ª
feira 20h