Posse de Juliana Simonetti na Academia Sorocabana de Letras
“Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife.”
“O ato criador é perigoso, porque a gente pode ir e não voltar mais. Todo artista sofre um grande risco. Até de loucura. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”
Olhando os olhos pensantes de Juliana, percebe-se que ela avança, penetra caminhos difíceis, corre riscos, enfrenta-os e busca essa verdade inventada de Clarice. Busca eterna. Prazerosa. Constante. Dolorosa. Forte. Nasceu para lutar com as palavras, mesmo que seja uma luta mansa. Reconstruir. Inventar a própria verdade, enveredar pela ficção. Recriar. Transcender. Caminhar além do óbvio.
“Não é fácil escrever. É duro quebrar rochas. Voam faíscas e lascas como aços espelhados. Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.”
Nessas entrelinhas, captamos todo o sentido da escritura. Clarice é responsabilidade. Tenho certeza: toda obra da grande escritora será revisitada e transcriada. Verdades inventadas.
Juliana é jornalista, pesquisadora, sente e vibra com a força da palavra: palavra/imagem. Com a ausência da palavra, ouve o grito do silêncio. Palavra inventada.
Jornalista graduada pela Universidade Estadual de Londrina, já participou de publicação de livro de reflexão sobre a escrita, com análise de textos dos autores, entrevistas e imagens. Mestranda pela Unicamp em Teoria das Artes. Assistente de direção de arte de curta-metragem. Dois projetos – livro, filme – em dois anos, aprovados pela Lei de Incentivo à Cultura de Londrina. Curadora de mostra de Artes Plásticas, repórter de jornal e de rádio. O mundo é grande, mas cabe na mão de Juliana.
Tão jovem e se embrenhando pelas veredas de um mundo sempre perigoso, mas delicioso em seus enigmas, cheio de palavras secretas, de silêncios ruidosos. Um mundo de Alice. Não. De Clarice. Mundo de Juliana.
“Não se preocupe em “entender”. Viver ultrapassa todo entendimento. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Eu sou uma pergunta. O jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso.”
Os dados não nos dão a sorte. As cartas, conforme jogadas, podem encontrar uma rainha louca que gritará: -Cortem-lhe a cabeça. O gato lhe apresentará jogos com todos os aspectos confusos, em cujo ritmo há toda uma verdade inventada.
...e antes que você acorde desse mundo maravilhoso e coma um cogumelo que a faça crescer, crescer, crescer, crescer, ou outro pedaço que a faça diminuir, diminuir, diminuir – viva. Viva a sua verdade. Continue criando “personagentes” e convivendo com ele nos perdidos do Sertão.
“Todo homem tem uma sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.”
“A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”
Domínio de Juliana.
“Minha liberdade é escrever.”
Liberdade de Juliana.
Liberdade real ou inventada? Quem sabe?
“Simplesmente as palavras do homem”, que ouviu dos Manuelzões, Miguilins, Sorocos, Nhinhinhas, montada no Burrinho Pedrês, com os olhos de Macabea, de Alice, Clarice, Juliana.
“Viver é muito perigoso.” Não viver é omissão.
“Somos um coração pulsando no mundo” que “não pesa mais que a mão de uma criança.”
Seja bem-vinda, Juliana. Imenso orgulho em recebê-la, jovem acadêmica.
29/09/2007