Posse de José Rubens Incao na Academia Sorocabana de Letras

 

 

 

Assim devia ser o quarto do meu avô quando era vivo, o armazém de um salvador de todo tipo de material tipográfico, que outros jogariam no lixo, a estiva de um navio fantasma que transportava documentos esquecidos de um mar para outro, um lugar onde alguém poderia se perder se recomeçasse a remexer cada pilha ou calhamaço. Onde foram parar todas aquelas maravilhas?” (Umberto Eco)

 

Hoje, o avô ainda é pai. O armazém é a Biblioteca Infantil. Salvador de todo tipo de material, de documentos esquecidos, maravilhas da vida de cada um. Perfil de José Rubens descrito por Umberto Eco. Estranho, como os seres se parecem. Incao busca, pesquisa, recolhe e analisa com técnica e emoção. Capaz de envolver-se e de envolver.

Prende o passado nas histórias em quadrinho, no país das maravilhas, no sítio do Picapau ainda amarelo, no canto da sereia (triste Sereiazinha), na mágoa do Gigante, no furor de Zeus, na trajetória de Robinson Crusoé e não sabia que “a sua história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.” ( Drummond)

José Rubens é trezentos e cinqüenta, como Mário, com caminhos parecidos e perspectivas, às vezes, diferentes.

Viajante dos sonhos, apanhando no ar, no luar, nas águas, no gosto do encontro, a maré cheia de sua vida. Seu pai cavalgava o trem e como o pai, carrega nos ombros o peso do mundo, num trem imaginário. Mãe Teresa costurando a vida, como o filho, silenciosamente.

Interessante, capaz de estranhar Oswald, mas captá-lo e segui-lo. “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.” Difícil: ver com olhos livres e descobrir em meio às suas dores e anseios que “a própria dor é uma felicidade” (Ah, Mário!). Como quem caminha pelas veredas do sertão, sabe que está caminhando pelo seu mundo,porque o sertão é o mundo”, “ele é dentro da gentee “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”, bem próximo da terceira margem, que é onde se recolhem os que fazem da vida algo mais profundo e partem na busca do encontro com a natureza e com a sua identidade. Terceira margem em que vivemos e de onde tentamos sair das próprias tristezas e buscar no mais simples, no interior do mundo, da cidade, da rua, da estrada, o cheiro de terra, o prazer do som da água que acompanha o Tietê:

 

Água do meu Tietê

onde me queres levar?

- Rio que entra pela terra

e que me afasta do mar.”

 

Aprendiz e mestre. Com diploma, sem diploma, não importa. Sigamos Milton Hatoum e encontraremos o : “A vida começa verdadeiramente com a memória”, “na infânciaodores inesquecíveis”, “a esperança e a amargura são parecidas”. Tudo membranas do passado rompidas por súbitas imagens”. “Olhava com assombro e tristeza a cidade que se mutilava e crescia ao mesmo tempo, irreconciliável com o seu passado,” “O jogo de lembranças e esquecimento meprazer.”

Na Biblioteca Infantil, como no Campo dos Sonhos, os jovens vêm, as crianças ficam e os velhos passam. Todos deixam e levam conhecimento. “O ar (sempre) com cheiro de lembrança.” Guimarães Rosa

Pesquisas que seguem um caminho variado e profundo: Zeus, Gaia, Prometeu, divindades, potestades, heróis, mitos, tragédias, Sófocles, Ésquilo, Camões, Dante.

Caminha com as estrelas de Dante: “saímos por ali, a rever estrelas”, “puro e disposto a subir às estrelas, e nos olhos de Beatrice consegue enxergar a luz divina, “o amor que move o Sol e as outras estrelas”.

Sai de Dante, Machado, Clarice, Lobato, Freud, Yung, Mozart, Wagner, Bach, Villa-Lobos, Beethoven, Litz, Shuman, Shubert e adentra nas modas de viola, nos repentes, cururus, Folia de Reis, do Divino, brincadeiras de roda. Paulistanidade.

 

“Sou o caboclo do mato que ronda a luz d’ uma estrela.” Menotti del Picchia

 

Contador magnífico de estórias, “sente a solidão da casa vazia (Sérgio Porto) e percebe que“o mundo é real demais para alguém pensar que se trata de um sonho.” (Ferreira Gullar)

Nossos cumprimentos ao grande orientador da Biblioteca Infantil Municipal. Profundo reconhecimento por seu valor e competência.

Seja bem-vindo. Nós, da Academia Sorocabana de Letras, sentimo-nos orgulhosos em recebê-lo.

 

 

                                                                                                                                                         Sorocaba, 19 de dezembro de 2006