Drummond cantou o amor, a dor, a solidão, o encontro, o desencontro, a guerra, a bomba, a destruição, o erotismo, o medo, o homem, como tantos outros poetas. Mas tantos outros poetas não foram Drummond.
“É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.”
“Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?”
Existe um homem chamado Drummond. Carlos. Não José. Não? Por que não? De Itabira. De ferro. De alma. De família. De vida simples, “mais bonita que a de Robinson Crusoé.” De sonhos.
“Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! Mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.”
Cantou o medo, a bomba, a guerra. Tempos de guerra, de “choro atrás da parede”.
“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
“Eu lamento que haja pouco consumo de livro no Brasil. Mas aí é um problema muito mais grave. É o problema da deseducação, o problema da pobreza - e, portanto, o da falta de nutrição e da falta de saúde. Antes de um escritor se lamentar porque não é lido como são lidos os escritores americanos ou europeus, ele deve se lamentar de pertencer a um país em que há tanta miséria e tanta injustiça social”.
“Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
e todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.”
O poeta da solidão?
“Em parte, sim, porque perdi meus pais e meus irmãos todos. Nós éramos seis irmãos. E, em parte, porque perdi também amigos da minha mocidade, como Pedro Nava, Mílton Campos, Emílio Moura, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Gustavo Capanema e outros que faziam parte da minha vida anterior, a mais profunda. Isso me dá um sentimento de solidão. Por outro lado, a solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.
“Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
E roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas.”
O sofrimento pelo tempo. A premonição. O fato acontecendo. Tragédia. Bomba. O imponderável acontecendo.
“Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
E te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. (...)
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
E adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”
Premonição do poeta de “Ó vida futura! Nós te criaremos”? Não. Sabedoria. O estranho poder do poeta... Ver além do seu tempo, do seu espaço, da sua dor.
“Não
lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não
fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida
literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não
houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais
poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me
perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de
analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão
de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas
poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo.
Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos.
Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira
nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria
muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.
Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo
com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada”.
“Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”.
Emoção grande e uma alegria no momento de escrever o poema. Uma vez feito, dizia:
“É como o ato amoroso. Você sente o orgasmo, sai a poluição e depois aquilo acabou. Fica a lembrança agradável, mas você não pode dizer que aquele orgasmo foi melhor do que o outro! O mecanismo não é o mesmo, a reação não é a mesma”.
“É sempre no passado aquele orgasmo
é sempre no presente aquele duplo
é sempre no futuro aquele pânico
É sempre no meu peito aquela garra
É sempre no meu tédio aquele aceno
É sempre no meu sono aquela guerra”
“Trabalhei na imprensa durante a minha vida toda, com um ligeiro intervalo em que me dediquei só à burocracia do Ministério da Educação. Sempre tive muita consideração dos meus companheiros. E muita liberdade. Mas me recordo que, tempos atrás, num momento de molecagem, para testar a resistência do copy-desk, no Jornal do Brasil, escrevi a palavra bunda. Cortaram e botaram a palavra traseiro. Hoje, a palavra bunda circula até em fotografia, em desenho, por toda parte. Uma das coisas mais celebradas pela grande imprensa é a bunda. A televisão está lá - mostrando bunda de homem, o que, a nós, não interessa...”
“Não participei da elaboração do grande jornal
diário e intenso. Como cronista, escrevia em casa. O jornal, gentilmente,
mandava apanhar a minha matéria. Como jornalista, não tive a emoção da grande
reportagem e dos grandes acontecimentos que eu teria de enfrentar numa fração
de segundo para que a matéria saísse no dia seguinte”.
“Sou vinte na máquina
que suavemente respira (...)
carne em breve explodindo.
Ó brancura, serenidade, sob a violência
Da morte sem aviso prévio,
Cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico,
Golpe vibrado no ar, lâmina de vento
No pescoço, raio
Choque estrondo fulguração
Rolamos pulverizados
Caio verticalmente, e me transformo em notícia.”
Sua motivação foi procurar resolver, através de versos, os problemas existenciais internos do ser humano: angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo.
“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! Ao eterno.”
Deslumbramento com os amigos. Versos de paixão. De coração. Amigo verdadeiro. Dedicação aos companheiros, ao povo, aos brasis.
“Mário arco-íris, mas tão exato
na modernatura de suas cores e dores,
que captamos a só imagem de alegria
e azul disciplinado
lá onde, surdamente,
turvação, paciência e angústia se
mesclaram.”
“O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina, e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música, entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,
nas regiões inventadas,
países a que aspiramos,
fantásticos,
mas certos, inelutáveis,
terra de João invencível,
a rosa do povo aberta...”
Poeta sofrido. Vivendo o mundo das palavras. Sentindo a perenidade de tudo. Amando o simples. O essencial é viver.
“Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras, que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!”
Depois a perda. A morte. A filha que se foi. Carlos dobrou-se ao peso da dor. Entregou-se. Deixou-nos.
“Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.”
Últimas palavras. Últimos agradecimentos. Escritos deixados em jornais e depois em obra a ser publicada. Fiel a quem lhe foi fiel a vida toda. E além da vida.
“Aos leitores,
gratidão,
essa
palavra-tudo.”
Novembro de 2002