Cem anos de Guimarães sem Mantovani
Myrna Atalla Senise*
Nossa! se soubesse falar como Guimarães Rosa lá nos perdidos do sertão, seria na “maior alegria – coração de cão com dono.” Como estou desnorteada, emprestarei Macunaíma de Mário de Andrade, e de mito em mito, caminhando pelo folclore, nas águas do rio Tietê que sempre me levam pra dentro e que me afastam do mar, talvez possa me deparar com Cordisburgo e ser toda coração.
Que me levem pro sertão. Aceitarei o chamado do pai, A Terceira Margem do Rio. Deixarei o Campo das Gerais lá pelo Urubuquaquá no Pinhém com todos os recados para o Cara-de-Bronze. No balanço da Menina de Lá, assistirei ao Duelo, saberei do Famigerado e chegarei, no exato momento, de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, no lombo do Burrinho Pedrês, ou no rabo, não sei, e de Corpo Fechado falarei de Mantovani pra todos os bichos da mata e pra todos os que quiserem me ouvir.
Grande Sertão que me aguarde. Irei pelas Veredas, falando das dores de Riobaldo e Diadorim, de Manuelzão e Miguilim, contadas e recontadas por Mantovani, e pedirei a Soroco que cante e repasse lá pelos "Gerais do trovão, os Gerais do vento" a sua música levada pela cidade e que sua filha e sua mãe possam "chorar o meu pranto" como Grivo.
Preciso deixar amortecer o meu cérebro, pra repensar e escapar desse estúrdio e poder gritar como o vaqueiro Muçapira de Cara-de-Bronze: "Estou escutando a sede do gado", "pois a vida é certa, no futuro e nos passados..." e quem sabe chegue a algum bom pouso, depois de O Recado do Morro "pulando de estrela em estrela, até aos seus Gerais."
Saudação aos cem anos de Guimarães Rosa, tão chorado nos trabalhos do meu amigo Carlos Roberto, o Cabel, o Mantovani. Olhos, sonhos, coragem e lágrimas de Miguilim.
Dia 26, encontraremos Mantovani, às 20h, na Semana do Escritor, ali na Fundec. Sábado à noite, Menino, “como se estivesse com a Mãe, sã, salva, sorridente, e todos, e o Macaquinho com uma bonita gravata verde – no alpendre do terreirinho das altas árvores (...) onde assistiam, em tempo-sobre-tempo, ao sol no renascer e ao vôo, ainda muito mais vivo, entoante e existente-parado que não se acabava - do tucano, que vem comer frutinhas na dourada copa, nos altos vales da aurora, ali junto de casa. Só aquilo. Só tudo.” E todos lembrarão que ele “sorria fechado: sorriso e enigmas seus. E venha a vida”, “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio”. Caro Manto, “rio-pondo perpétuo.”
* Sócia Efetiva da Academia Sorocabana de Letras; Titular da Cadeira nº 3 que tem como Patrono Guimarães Rosa