“Toda saudade é uma espécie de velhice”, disse Guimarães Rosa. Velhice da alma. Do sangue. Da espera. Longa espera.
“Os pés gelados
mãos umedecidas
um nó na garganta
um soluço
a ressaca da existência
a fumaça do cigarro pelo quarto trancado
ninguém chama por você
lá fora ninguém.” (Mantovani)
Solidão. Ah! triste companheira! Amiga, carrasca, comparsa. Ninguém. Perdoe-nos, Manto. Hoje, saudade. Saudade do rosto amigo. Das palavras ternas. Um tom rouco. Rosto expressivo. Ator da vida, sofrendo vergastadas. Acima de tudo, amando. Compreendendo. Olhos tristes. Ternos. Sonhadores. Cheios de indagações. Perdido no próprio emaranhado de seus sonhos. Acreditar. Fé no indivíduo. Representar o ato final e, magistralmente, se despedir.
“As cicatrizes não estão nas faces,
putrefam por dentro
e expandem-se como um tumor maligno,
arrebentam sem permissão
o Seio e junto vai com ele o coração,
um coração ensangüentado
e o sangue não é o sangue que escorre,
são lágrimas que não vertem pelos olhos.” (Mantovani)
As cicatrizes não estão nas faces. Estão em todos nós. Em nossas entranhas. Todas as fotos mostram a beleza do seu riso. O vinco de suas preocupações. A sua presença. Em tudo, você. Todos os sons, risos, lugares. Nada se dilui com a distância. Diria que a ausência é uma presença constante. O palco está ali. O ator também. Representação contínua. Os aplausos. Ouçam. Bravo. Bravíssimo. Grande Mantovani.
Lembra-se dos tempos difíceis? Sempre demos o próximo passo. “O próximo passo não é para a eternidade.” Espíritos unidos. Cabeças bandidas. Soltas ao ideal. Acreditamos, pois “havia um sorriso mínimo”, uma “ilusão fugaz”.
“Minha cabeça bandida
tem sonhos
tem filhos
tem férias
e céu.” (Mantovani)
Tem céu. Férias. Sonhos. Filhos do teatro. Cabeça bandida, tão heróica! Nada de palavras dúbias. Manto palavra. Manto poeta. Manto diretor de teatro. Autor. Ator. Autêntico. Arte pela arte. Sangue pela arte. Vida pela arte. Sonhos pela arte. Sonhos na arte. Sonhos com arte. O pão sempre dividido. A esperança também. Companheiro, seus olhos tristes. Sua luta.
“Ficou em você
não os tumores
esses eu os carrego
não os odores
esses eu os suporto
Velhos pesadelos
as marcas
o desprazer
os guizos de serpentes milenares
gritos abafados
passos falsos
desencantos
Ficaram de você
Outros tumores
Outros odores
Novos pesadelos.” (Mantovani)
Novos pesadelos. Conturbados. Caóticos. Sentimos você. Corpo. O elo não se dilui. Um só corpo. Todos. A grande ciranda da vida. Ciranda do universo. Nosso mundo de sonhos. Faríamos o circo reviver. O teatro sairia pelas ruas. As poesias não ficariam encarceradas em livros. Nada de tumores, dores. Tudo seria vida. Pulsaríamos juntos. Sem pesadelos. Meu Deus! Tudo preparado. O grande espetáculo da vida. Cerceado. Cerceada. Por quê?
“Essas marcas, ganhei no escuro
a máscara é pouco eficiente,
não disfarça o lá.
O verso e o reverso carregam as mesmas frestas,
os mesmos sulcos.
A navalha partiu nas faces os hemisférios.
Não me olhem!
A forma em que estou me delata.
E a fragilidade dos meus gestos não esconde o vazio
de meus braços.
Não me olhem!
Fui empalhado e a visitação pública me constrange.”(Mantovani)
Verso e reverso. Nascido alhures. Autêntico no amor à terra que o acolheu. Nunca sair. Estar. Presença contínua. A morte não o levou. A morte não existe para o artista. A inenarrável das gentes é abstração. Concretos, somente os sonhos. Luzes para ele. Muitas luzes.
“Acendem as luzes da noite.
Se morro agora,
me enterrem sob a relva
pela manhã,
por favor.” (Mantovani)
O que deveríamos escrever na lápide, amigo? Que ali, no campo, não há nada?Que você caminha lado a lado conosco? Ombro a ombro. Cultuado pelo povo. Pelos jovens. Pelos amigos. Pela família. A força do espírito não se esvai. Não se extingue. A amizade perdura. Haroldo de Campos, morto também em 2003, bem o disse:
“aqui
jaz
solidão
aqui
jade
amizade.”
Até um dia, amigo. Ainda há muita relva. Continuemos a nossa caminhada, por favor.
“Perdoem-me
entrei em porta errada.
Dorme a lua em meus olhos embaçados.” (Mantovani)
Myrna Atalla Senise