O Nome de Rosa: Vereda de um Grande Sertão
“Tinha medo não. Tinha cansaço de esperança.”
Cansaço de esperança. Sabia que a “colheita é comum, mas o capinar é sozinho”. Cansaço de esperança. O som trazendo a ansiedade da palavra. Entre o cansaço e a esperança brilha o “sertão, velho de idade”. E o medo. Diá.
“O sertão é o terreno da eternidade, da solidão”.
João Guimarães Rosa, de Cordisburgo, Minas Gerais, “brasileiro que nem eu”, diria Mário de Andrade.
João: médico, diplomata, escritor. Deixaria de ser médico por algum momento? Há como isentar a formação da própria existência? Na travessia pelo sertão, o que o homem viu o médico analisou?
Como ser um, sendo outro e mais outro? Simbiose perfeita. Venceu o escritor, o (re)construtor da palavra. Di? Ou Diá? O diabo não há. Forte por não existir. Ou existe? Nonada.
“Olhe: tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se vendi? digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é esse, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...”
Sem nenhum comprador? Por que o medo? Riobaldo. “A quem vendi?” Riobaldo. Ah! rio baldo. Vereda do jagunço. Oásis do barranqueiro.
“Ninguém nunca foi jagunço obrigado. Sertanejos, mire e veja: o sertão é uma espera enorme”.
Cem anos de Guimarães. Anos de espera. Grande sertão: veredas. Liberdade de inventar.
“Na extraordinária obra-prima Grande sertão: veredas, afirma Antônio Cândido, há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício; mas em cada aspecto aparecerá o traço fundamental do autor, a absoluta confiança na liberdade de inventar.”
Confiança na liberdade de inventar. Absoluta confiança na arte que transgrediu realidades e expandiu perspectivas.
Signo completo à procura da (in)completude do signo. Palavra inovadora. Renovadora. Palavra de Rosa. Sem cheiro de rosa. Com cheiro de Rosa. Trabalho de Rosa. Completa por Rosa. Ousada. (Trans)criadora. Nonada.
Oralidade e virtuosismo. Inovação. Tudo cercado pela emoção, pelo subjetivo racional. Transcendental. Pura arte. Arte pura..
Cordisburgo. Rosa coração. Comoção. Sertão universal. Sertão individual. Veredas.
“O sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta”.
Rumor do próprio silêncio. Cinqüenta anos depois ouvimos o silêncio ruidoso das palavras de Rosa. Palavras transformadoras da arte de escrever com arte.
A natureza envelhece. O ser humano envelhece. Grande sertão: veredas rejuvenesce a cada leitura, a cada construtura. Transgride o tempo. Reformula a noção de espaço. Tempo e espaço de Rosa: infinitos, eternos.
“Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece o vento. E os brabos bichos do fundo dele”.
Ali envelhece o vento, num “sertão que não é malino nem caridoso, mano oh mano!... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga”.
Eis a vida no brilho das palavras. Encantadas. Atuais. Fundas. Profundas. Sons que se repetem, que se unem, extrapolam lugares comuns e se ampliam em significados.
Jogos reais. Sensitivos. Sensações: "envelhece o vento”, “a saudade me alembra”. Rosa alembra rosa, que alembra terra e o faz ser tão sertão.
“Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ontem nem amanhã: é sempre”. Sempre “a paz gritável”, pois “o sertão é uma espera enorme”.
“Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...”
Sertão. Riobaldo. Diadorim. Homem. Mulher. Deus. Diabo. Diadorim. Dor. Perplexidade. “Diadorim era a minha neblina.”.
O milagre em Rosa está contido na essência de cada palavra. Nada veio do acaso. Por acaso. Deus e o Diabo, dicotomia tão séria. Pesada. “O diabo na rua no meio do redemoinho” da existência. Diabo.
Demônio, poucas vezes. Demônio – redemoinho. Sons parecidos e amedrontadores. O diabo tão temido, existentenãoexistindo, o não-ser-sendo, um que-não-existe-existindo: “Que não existe, que não, que não, é o que minha alma soletra”. O não-existente forte, dominador, poderoso. Medo. O bem e o mal. Vence o mal? Diá.
“Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias”.
O sertão encanta, envolve, enrodilha. Astucioso. Árido. Amplo. Triste. Do tamanho do mundo.
“O sertão é do tamanho do mundo... é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”.
“Sertão é sozinho
Sertão é cada um
Sertão é dentro da gente”.
E mais:
“A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro...”
“Doravante, diz Augusto de Campos, ninguém poderá construir qualquer coisa, em prosa brasileira, pretendendo ignorar Grande sertão: veredas: convívio com as palavras, as coisas e os seres”.
Deslumbramento de Rosa em cada instante, nos vazios, nos encontros. Caminhar pelas veredas e perceber que “ a vida da gente nunca tem termo real”.
Solitude de Rosa nas entrelinhas, no amor contido e proibido de Riobaldo, cabra macho. “Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo. Como eu solucei o meu desespero”. Diadorim. Diadorim. “Uivei. Diadorim!”
João iluminado, escritor maior. Viveu pela emoção de escrever. Cumpriu o seu destino.
“Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.”
“Sei de mim? Cumpro.”
Myrna Atalla Senise