Academia lembra os 40 anos da maior prisão
de estudantes da história do Brasil
Há quarenta anos, em Ibiúna, a
Polícia do governador Abreu Sodré realizou a maior prisão coletiva da história
do Brasil.
Na manhã de 12 de outubro, mais
de uma centena de soldados do 7º Batalhão da Força Pública (atual Polícia Militar),
vindos de Sorocaba sob o comando do coronel Divo Barsotti, comandante da unidade,
e uns 50 agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), enviados de
São Paulo sob a chefia do delegado João Paulo Buonchristiano, invadiram o sítio
Murundu, ali situado, e prenderam todos os delegados ao XXX Congresso da União Nacional
dos Estudantes (UNE), proibido pela ditadura militar, que ali se realizava.
A relação dos detidos incluía
desde os principais líderes da organização estudantil, como Luís Travassos,
José Dirceu e Vladimir Palmeira, aos iniciantes em política estudantil, como o seminarista
Luiz Gonzaga de Almeida, que estudava na Faculdade de Filosofia de Sorocaba,
foi eleito, pelos colegas, como um dos delegados ao Congresso e acabou preso, como
contou recentemente à Gazeta Mercantil.
Até hoje não há consenso sobre
o número das prisões ali realizadas. A lista da Polícia, em São Paulo, registra
pouco mais de 700; a revista Veja, ao noticiar o fato, estimou as capturas em
920 e o jornalista Zuenir Ventura lembra que algumas fontes estimam que os presos
foram mais de 1.200.
Embora realizado em condições
precaríssimas, o XXX Congresso marcou um momento alto da mobilização do
movimento estudantil. Se levarmos em conta o pequeno número de estudantes
universitários do Brasil naquela época, teve uma participação maior que os
vinte congressos que a UNE realizou depois da retomada de sua existência legal.
A prisão dos estudantes em Ibiúna foi o maior ato de repressão da ditadura militar a uma reunião de civis que, desarmados, discutiam os rumos do País.
Em sua maior parte, os presos
de Ibiúna foram liberados num prazo relativamente curto, embora todos tenham
sido marcados pela experiência traumática. Os líderes da UNE na ocasião –
Travassos, Dirceu, Palmeira – somente no ano seguinte sairiam da cadeia para o exílio.
A Junta Militar que governava o país aceitou que seus nomes fossem incluídos na
lista dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano,
seqüestrado no Rio de Janeiro.
O acadêmico Sérgio Coelho de Oliveira, jornalista e historiador, à época era repórter regional de O Estado de S. Paulo em Sorocaba e foi o único jornalista a acompanhar o cerco e a invasão do Sítio Murundu pelos soldados da Força Pública.
Quase à meia-noite do dia 11, o telefone tocou em sua casa e ele recebeu, da
chefia
de reportagem do Estadão, orientação para seguir imediatamente para Ibiúna e juntar-se, ali, aos soldados
comandados pelo coronel Barsotti, que já estavam na área há algumas horas.
Neste sábado, às 9h30, durante a reunião da Academia Sorocabana de Letras, à rua Comendador Oeterer, 737, Sérgio Coelho de Oliveira estará
contando as peripécias que marcaram o cumprimento daquela pauta e apresentando o texto por ele redigido na ocasião e publicado pelo jornal no dia 13.
A reunião é aberta a todos os interessados.