Sorocaba foi a primeira cidade do mundo a vencer a febre amarela

                                                                                                                                                                                               Geraldo Bonadio *

 

  

Sorocaba foi a primeira cidade do mundo a erradicar a febre amarela.

Esse fato, pouco conhecido, modifica radicalmente a história do combate às epidemias, que atribui o pioneirismo da erradicação a Havana.

Na capital cubana, os trabalhos de combate à enfermidade se iniciaram em fevereiro de 1901, sob o comando do major-médico William Gorgas[1], do exército norte-americano, como fruto de pesquisa anteriormente desenvolvida na ilha, pelo também major-médico Walter Reed.[2]

Um mês antes, ou seja, em janeiro de 1901, por determinação do médico paulista Emílio Ribas, que na ocasião chefiava a saúde pública do Estado, começaram a ser realizados em Sorocaba trabalhos assemelhados àqueles depois realizados em Cuba.

Nos dois casos, o enfrentamento da doença se fez com base na mesma doutrina, construída, nas últimas décadas do século XIX, a partir pesquisas laboratoriais e de campo, pelo médico cubano Carlos Juan Finlay.

Ribas foi o primeiro médico sanitarista, investido de autoridade na área da saúde pública, a extrair conseqüências práticas das constatações do pesquisador cubano.

Examinando sua doutrina, sozinho em São Paulo, definiu meios e modos, baseados no isolamento dos pacientes e na eliminação do mosquito que lhe servia de vetor, para frear o desenvolvimento de epidemias ou impedir a repetição delas em áreas em que houvessem anteriormente se manifestado. Criou tecnologias de saneamento que deram praticidade ao conhecimento gerado por Finlay.

No final do século XIX a febre amarela preocupava seriamente os governos da América. Foi esse um dos motivos determinantes da realização em Washington, em 1881, de uma Conferência Sanitária Internacional. A ela compareceu Carlos Juan Finlay, médico cubano de ascendência irlandesa que vinha se dedicando ao estudo da moléstia.

À época, duas doutrinas antagônicas propunham-se a explicar a transmissão da doença. Os contagionistas sustentavam que ela se fazia do indivíduo doente para a pessoa sã, por contato direto. Os não-contagionistas entendiam que a transmissão se dava por meio de um vetor, em circunstâncias que não conseguiam, entretanto, explicar plenamente.

Numa das sessões, em que ia mais aceso o debate entre os dois grupos, o pesquisador cubano expôs seu entendimento de que a propagação da febre amarela estava vinculada a três condições: “1) a existência prévia de um caso de febre amarela, em um período determinado da enfermidade; 2) a presença de um indivíduo apto para contrair a enfermidade; 3) a presença de um agente cuja existência fosse completamente independente da enfermidade e do enfermo, porém necessária para transmitir a enfermidade do indivíduo doente ao homem são.” Concluiu sua manifestação afirmando que todas as medidas de combate à febre amarela seriam ineficazes se não se atacasse e destruísse o agente transmissor. [3]

Muitas vidas teriam sido salvas, inclusive em Sorocaba, se a Conferência houvesse levado a sério as pesquisas de Finlay. Mas não levou: o pesquisador retornou a Cuba e a febre amarela continuou a matar.

Na passagem do século XIX para o século XX, Sorocaba foi vítima de duas epidemias de febre amarela.

A primeira começou em 23 de abril de 1897, fez 42 vítimas e afugentou os participantes da última das grandes feiras que haviam tornado a cidade conhecida como o maior entreposto do Brasil no comércio de muares.[4] O evento nunca mais se reergueu. No esforço para evitar a propagação da moléstia teve papel importante o hospital de isolamento criado pelo médico Álvaro Soares.[5]

Iniciada em 23 de dezembro de 1899, a segunda epidemia teve proporções aterradoras: numa cidade habitada, à época, por 15 mil pessoas, até 30 de junho de 1900, com a epidemia ainda em andamento, foram notificados 2.322 casos [6], um para cada grupo de 6,4 moradores. Dos contaminados, 743 morreram[7].

As dimensões da epidemia tornam ainda mais assombroso o resultado do trabalho de erradicação realizado sob a orientação de Emílio Ribas, “com métodos por ele próprio projetados” [8]: em 1901 e nos anos seguintes o número de casos baixou a zero e nunca mais houve epidemias de febre amarela em Sorocaba.

Foi, portanto, em nosso solo que se travou a primeira luta vitoriosa - no continente americano e em todo o mundo - contra uma das mais terríveis moléstias epidêmicas da época.

A grande epidemia de 1899/1900, em Sorocaba, foi “anterior ao conhecimento da doutrina de Finlay” [9] em nosso país. Os trabalhos de profilaxia e combate, desencadeados em função dela, se valeram dos “meios de defesa ditados pelos contagionistas”, quenenhum valor têm no debelamento de uma epidemia de febre amarela, seja qual for o rigor empregado”.[10]

No início de 1901, Ribas, inteirado das idéias do médico cubano[11], publica, em janeiro, o primeiro trabalho de pesquisador brasileiro sobre a questão. No mesmo mês, determina o início, em Sorocaba, de trabalhos para impedir que a epidemia pudesse repetir-se, cuja execução foi confiada ao Dr. José Bento de Paula Souza, chefe da Comissão Sanitária do Estado.[12]

Graças ao seu dinamismo, saber e experiência, Ribas extinguiu os focos de febre amarela em nossa cidade, mas perdeu a batalha da opinião pública. A eficiência das medidas tomadas sob o seu comando não foi entendida.

Em razão da mortandade ocasionada pela epidemia, o governo local e o estadual finalmente implementaram, à mesma época em que o sanitarista combatia os focos de mosquitos, trabalhos de saneamento básico dos quais a cidademuito necessitava.[13] O trabalho profícuo projetado e supervisionado pelo sanitarista eliminou o problema, mas o saneamento, indevidamente, ficou com os louros.  

Embora a febre amarela tenha desaparecido com a eliminação do vetor, muitos relutavam em admitir que fosse o mosquito o único e exclusivo transmissor da doença.

A corrente dos contagionistas continuou a ter adeptos e sustentava que “a extinção da febre amarela não se podia ligar diretamente ao extermínio dos mosquitos, porém às obras gerais de saneamento que, concomitantemente, iam sendo feitas, embora morosamente caminhassem os abastecimentos de água e esgotos. Outros diziam que a doença podia ser transmitida pelos mosquitos, mas [era] conseqüência da água infetada onde eles se criavam.” [14]

Percorrendo o centro da cidade, o sorocabano encontra vários logradouros públicos que, após a epidemia, receberam o nome dos que vieram socorrer ou confortar a população vitimada pela doença ou liberaram recursos para obras de saneamento.

Emílio Ribas, que efetivamente libertou Sorocaba da recorrente ameaça da febre amarela, recebeu homenagem muito mais modesta: seu nome foi dado a uma pequena via pública, ao lado do Cemitério da Consolação, na Árvore Grande.

 

 * Presidente da Academia Sorocabana de Letras (2007/2009). Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, da Sociedade Brasileira de Pesquisa História e da Sociedade Brasileira de História da Ciência.

 


[1] William Crawford Gorgas, nascido em 1854, em Mobile, no Alabama, graduou-se em medicina pelo Bellevue Hospital Medical College, em 1879 e chegou ao importante posto de chefe dos serviços de saúde pública dos Estados Unidos, sobretudo em razão do combate à febre amarela desenvolvido no Panamá, durante a construção do canal que ligou o Oceano Pacífico ao Atlântico.  Faleceu em 1920. Coube a ele eliminar a incidência da febre amarela em Havana, aplicando a doutrina de Finlay testada em voluntários do exército norte-americano por Reed.

CHERNOW, Barbara A. e VALLASI, George A.  The Columbia  Encyclopedia. 5.ed. New York : Columbia University Press, 1993, p. ll10. 

[2] Epidemiologista norte-americano, nascido em Gloucester, na Virgínia, em 1851, estudou medicina na universidade de seu estado natal e em New York, juntando-se ao corpo médico do estadunidense em 1875. Havendo servido em vários postos de fronteira, especializou-se em bacteriologia na década de 90. Em 1900 foi designado para liderar um pequeno grupo de estudos sobre a febre amarela que grassava em Havana. Ali, testou as teorias sobre a transmissão da febre amarela construídas por Juan Carlos Finlay e definiu as bases para o trabalho de erradicação. Regressando aos Estados Unidos faleceu em 1902, vítima de complicações decorrentes de uma intervenção cirúrgica.

MILLAR, Davi et alii. The Cambridge dictionary of scientists. New York : Cambridge University Press, 1996, p. 271-272.

[3]FRANCO, Odair. Obra citada, p. 56.

[4]VIEIRA, Rogich. A feira de muares de Sorocaba. In:  BONADIO (org.), Geraldo. O tropeirismo e a formação do Brasil. Sorocaba : Academia Sorocabana de Letras / Fundação Ubaldino do Amaral, 1984, p. 36-37.

[5] ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Sorocaba: Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, 1969, p. 282.

[6]RIBAS, Emílio. A extinção da febre amarela no Estado de São Paulo e na cidade do Rio de Janeiro. Revista Médica de São Paulo. São Paulo : 1909, v. 12, n. 10, p. 198-209.

[7]ANTUNES, José Leopoldo Ferreira; NASCIMENTO, Cláudia Barleta do e NASSI, Lúcia Castilho. Laboratório de Saúde Pública  (1892-1925): In: ANTUNES, J.L.F. et alii (orgs.). Instituto Adolfo Lutz. 100 anos do Laboratório de Saúde Pública. São Paulo : Letras & Letras/ Secretaria de Estado da Saúde, 1992, p. 65.

[8]FRANCO, Odair. História da febre amarela no Brasil. Rio de Janeiro : Ministério da Saúde / Departamento Nacional de Endemias Rurais, 1969, p. 56 a 70.

[9]RIBAS, Emílio. Profilaxia da febre amarela. Rio de Janeiro : Brasil Médico,  1903, v. 17, n. 38 p. 398.

[10] Idem.

[11]Em  “São Paulo - Saúde e desenvolvimento (1870-1903): a instituição da rede estadual de saúde pública”, José Leopoldo Ferreira Antunes escreve: “A famosa experiência paulista, responsável pela elucidação definitiva do mecanismos de transmissão da febre amarela, só foi realizada entre 1902 e 1903, após serem reunidas as condições técnicas tidas como necessárias  para sua execução (...).  In: _ et alii (coordenadores). Obra citada, p. 33. Odair Franco já  observara  que “na sua excessiva modéstia, Ribas não levou em conta aquele primeiro trabalho em Sorocaba”, não porém sem antes afirmar, taxativamente que a ele “deve caber (...) a primazia da campanha contra o Culex taeniatus, hoje Aedes aegipty, visando a profilaxia da febre amarela.”  Grifo nosso. Obra citada, p. 65. 

[12] FRANCO, Odair. Obra citada, p. 64.

[13]FRANCO, Odair. Obra citada, p. 64.

[14]Idem.