Baltasar, o afortunado

Geraldo Bonadio

 

Meu caro vereador José Francisco Martinez, na pessoa de quem dirijo minha saudação a todas as autoridades presentes ou representadas, aos membros e aos amigos da Academia Sorocabana de Letras, à plêiade dos pesquisadores genealógicos aqui presente e, de um modo especial, ao nosso querido sócio correspondente em Caxias do Sul, Luiz Antônio Alves.

No próximo ano, senhor Presidente, a Academia festeja seu 30º aniversário.

Nesse período, realizou mais de 300 reuniões de trabalho, sempre abertas a todos os interessados, destinadas à apresentação das pesquisas e criações de seus integrantes.

Tornou-se, por força de leis votadas por esta casa, parceira obrigatória do Poder Público em programas como o Prêmio Anual Sorocaba de Literatura e o Concurso Jornalístico e Publicitário, de cujas comissões julgadoras participa, através de seus associados, sem ônus para o governo da cidade.

Contribuiu, além disso, com um sem número de atividades do poder público municipal. Cito aqui, a título de exemplo, a recente demarcação e sinalização do Caminho das Tropas na atual área urbana do município, em que, através dos acadêmicos Adalberto Nascimento, Myrna Ely Atalla Senise da Silva e Sérgio Coelho de Oliveira, atuou como consultora informal e gratuita da dinâmica e competente equipe da Secretaria dos Transportes.

Nesta noite, particularmente grata aos seus integrantes, lhe é dado participar ativamente, pela primeira vez nessas quase três décadas, de uma sessão solene da Câmara de Sorocaba, uma das primeiras a se instalarem no território do atual Estado de São Paulo, numa reunião que se destina a exaltar o fundador da cidade, Baltasar Fernandes.

Minha missão, senhor Presidente, é a de agradecer, em nome da Academia, a generosa acolhida que aqui encontrou de parte de Vossa Excelência, de seus colegas da Mesa Diretora e do Plenário de nosso Legislativo. Aqui encontramos, desde o primeiro momento, corações, braços e portas abertas. A essa Presidência e aos integrantes todos desta casa, o nosso comovido muito obrigado.

A produção historiográfica relativa aos bandeirantes, mais que outros capítulos da História do Brasil, tem sido reescrita de tempos em tempos. Na medida em que isso ocorre, a imagem daqueles personagens sofre mudanças.

Fico num exemplo. Oliveira Viana mal havia acabado de retratá-los como nobres e ricos mercadores e Alcântara Machado, apoiado no estudo dos inventários de Piratininga, começava a repintá-los como modestos lavradores, pequenos mercadores e aventureiros rústicos, dedicados à agricultura de subsistência e à captura de índios pelo interior.[1]  

Os bandeirantes têm recebido muitas censuras daqueles que insistem em aplicar, aos séculos XVII e XVIII, padrões éticos e de respeito aos direitos humanos que, ainda no século atual forcejamos para consolidar. Isso, entretanto, não modifica o fato de que com as bandeiras se inicia o processo de mudança dos acanhados contornos do País definidos, antes mesmo da viagem de Cabral, pelos Tratados de Tordesilhas.

Entre os rudes aventureiros daqueles tempos, destacam-se três filhos do bandeirante Manoel Fernandes Ramos, os quais passaram à história conhecidos como os Fernandes povoadores. Sem querer antecipar-me aos oradores da noite, ouso apenas observar que, da tríade, destaca-se a figura, estudada por Luiz Antônio Alves em seu livro monumental, de Baltasar Fernandes.

Na medida em que os anos passam, Baltasar emerge como o mais afortunado dos três irmãos. Ele lançou a semente do povoado que se revelaria mais vigoroso ao longo dos séculos. Foi um dos poucos de fundadores de povoamentos seiscentistas a ter a ventura de ver o povoado que iniciara elevado à alta condição de vila, no prazo, espantosamente rápido para a época, de sete anos.

Trata-se de um lapso de tempo reduzidíssimo. Contrasta, nitidamente com os 36 anos transcorridos entre a chegada dos primeiros povoadores – entre os quais se encontrava seu irmão, André – às terras virgens de Parnaíba, em 1589 e a criação, em 1625, da vila de Santana de Parnaíba. Ou com os 47 anos que separam a construção em 1610, nos campos de Pirapitingui, por seu irmão Domingos, da quase quatrocentona capela curada de Nossa Senhora da Candelária, e a criação da vila de Itu em 1653. Foi esse um acontecimento que a Domingos Fernandes, falecido no ano anterior, não foi dado presenciar.[2]

Destaco ainda a fina diplomacia exercitada na negociação entre os prepostos de Baltasar e o governador geral Salvador Correia de Sá e Benevides, da qual resultou a elevação a vila pela transferência do pelourinho da Vila de São Felipe, no Itavuvu.

Aquele fato inusitado tornou Sorocaba, simultaneamente, filha de Santana de Parnaíba, sob uma perspectiva e, sob outra, integrante do reduzido grupo dos municípios originários de São Paulo.

Nesta noite, recordamos a figura de Baltasar. O povoado por ele fundado acha-se convertido numa urbe de quase 600 mil habitantes. Destaca-se, entre os mais de 5.000 municípios do Brasil, como aquele que exibe o melhor índice de qualidade de vida no grupo das cidades com mais de 500 mil habitantes, à frente de todas as grandes metrópoles paulistas e das capitais brasileiras, inclusive São Paulo e Brasília.[3] (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal)

 

Valeu Baltasar!

 


[1] RAMINELLI, Ronald. Bandeirantes. In: VAINFAS, Ronaldo (dir.) DICIONÁRIO DO BRASIL COLONIAL (1500-1808). Rio : Objetiva, 2000, p. 64-65.

[2] CARVALHO FRANCO, Francisco de Assis. DICIONÁRIO DE BANDEIRANTES E SERTANEJOS DO BRASIL. São Paulo : Comissão do IV Centenário de São Paulo, 1954.

[3] FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO RIO DE JANEIRO (FIRJAN). Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal. Rio de Janeiro : 2008.