Batuque ou samba: Sorocaba tem história

 

Ana Maria de Souza Mendes *

Se 'em fevereiro tem carnaval', também tem passos e requebros, sons e cores, gente rica ou pobre, bonita ou não, tudo em função da segunda maior paixão do brasileiro, o carnaval. Nesse tempo a raça brasileira mostra seus encantos, fincando os pés numa estrada que começa a sair da teoria para ser real, como provam alguns movimentos da Sociedade.

Nesta sessão, dedicada a homenagear pessoas que com sua arte, crença, com sua força interior para provocar a diferença, influenciando seu tempo, ditaram regras ao futuro que vivemos hoje, quando fazemos acontecer a mais popular festa brasileira. Antes de falar de samba, é preciso reafirmar que o segmento negro da população brasileira, mesmo quando escravo, conservou traços de suas culturas de origem. Para não desviarmos do foco, vamos ressaltar alguns valores, comuns a todas as culturas presentes no continente africano, particularmente em sua parte subsaariana, valores muito próximos de todos nós brasileiros, principalmente de nós escravo-descendentes.

Associação: Os grupos étnicos se subdividem em associações que acompanham a vida da família de sangue. Por elas os membros ganham força, respeitabilidade e, com sorte, até mesmo o poder. É pela associação, estruturada a partir dos ritos de passagem, que marcam o final da adolescência, quando os jovens de mesma idade constroem seu cadinho de valores que, mantendo a tradição do lugar, guiará as ações e decisões do grupo formado. É o elo associativo anteriormente construído que mantém a paz entre as esposas de um patriarca, ensejando que elas busquem a prosperidade em seu comércio ou proteção para a prole, sem crises para disputa de poder.

Culto ao Sagrado: Entre outros valores, inegavelmente presentes na cultura brasileira, destacamos o culto ao sagrado, que acontece na alegria do encontro da família expandida, formada que foi com as bênçãos do Orixá protetor. Nesse encontro festivo, a presença do som, guardado desde a memória intrauterina, tornado real a partir de um tronco cavado a fogo, da pele de animal fechando uma das bocas. Esse som se repete convidando outros instrumentos, todos confeccionados aproveitando o que a natureza oferece o que nos faz ressaltar a vocação ecológica do africano e tristemente acusar a deformação conceituai que a educação voltada para uma corruptela de modernidade, tem conduzido o mundo chamado moderno.

Falamos do tum, tum, dos tambores, do tambu, familiares na África e no Brasil, para evocarmos as origens do samba de São Paulo.

 

O Samba

Da Angola que hoje conhecemos, vieram povos cujos idiomas contêm o termo samba. Para o povo Quimbundo, samba é umbigada, na língua Vmbundo tem o significado de estar animado, entre os Luba significa pular, saltar com alegria.

Quanto ao termo umbigada, seu significado vai além da noção lasciva que nos foi passada pelo colonizador. Na verdade na umbigada, quando os umbigos se tocam, há uma intenção reverente à primeira boca pela qual nos alimentamos de energia cósmica no ventre materno. Umbigada é então, louvação à fertilidade. Com a mesma índole está presente no samba de roda, no jongo...

País rural desde sua formação até meados do século XX, o Brasil urbano guarda importantes e sucessivas marcas desse tempo. A maioria de nós presenciou ou ao menos ouviu falar de uma celebração como da coroação do Rei e da Rainha Congo, de uma Festa da Santa Cruz ou, mais comum porque mais recente, de uma festa de São Benedito. O lado profano dessas festas sempre foi ao som de um batuque, de um bom samba.

O Samba em São Paulo

Para falarmos do samba em São Paulo, devemos nos voltar para o ano de 1725, no dia 6 de agosto, quando foi encontrada a imagem de Bom Jesus deitada sobre as pedras, às margens do Rio Tietê. Diz a tradição, que dias depois aconteceu um milagre: um mudo falou. Desde então o lugar passou a atrair romeiros do interior da província, na época, fazendeiros acompanhados de seus escravos. Enquanto os brancos rezavam ao santo dentro da Igreja, a escravaria, 'naturalmente' impedida de entrar na Igreja, tocava nos arredores seu batuque, em louvor ao Santo ou ao seu santo.

Com a abolição do regime, os ex-escravos e seus descendentes, continuaram a freqüentar Pirapora do Bom Jesus.

no século XX foram construídos dois imensos galpões para abrir os romeiros que não tinham recursos para pagar diária em hotel ou pensão.

Ali se encontravam as famílias expandidas vindas de Campinas, Capivari, Itu, Piracicaba, Sorocaba, cada uma trazendo seu grupo mais forte de samba.

Nos barracões aconteciam as apresentações como eram praticadas nas cidades de origem. Acontecia o Samba de Lenço, o Jongo, o Samba Campineiro, a Umbigada, o Tambu...

Mario de Andrade marca as décadas de 10 e 20 para a consolidação de Pirapora do Bom Jesus como reduto de samba e com divisão por cor da pele entre os batuqueiros. Relato de João do Pasto, batuqueiro branco, colhido aos seus 80 anos afirma que a divisão perdurou até os anos 50. "Tinha o samba dos de cor', que era separado. Os negros tocavam de um lado e os brancos de outro". Do que Mario de Andrade viu em 1933, em Pirapora do Bom Jesus pouco restou além do Samba que, enfrentando as restrições impostas pela elite de cada lugar permanece em seus redutos, embora o caminho de volta lhe tenha deixado marcas.

O SAMBA EM SOROCABA

O batuque, ponto de encontro da família expandida, que não precisava necessariamente ter como objetivo o culto ao sagrado, pós-abolição, acontecia também em Sorocaba. A associação acontecia por força da ocupação, das habilidades, do sentimento de ajuda mútua ou da vizinhança.

Para exemplificá-las, a Irmandade de São Benedito, o núcleo da Frente Negra Brasileira, entidades formalizadas; o grupo dos sapateiros, das lavadeiras, que juntavam habilidades e gosto pelo samba para estarem juntos.

O aparato de poder se encarregou de coibir, de proibir e de negar sua existência na história da gente sorocabana. ( Lei da vadiagem e outras tantas orientações)

No século XX, no meio urbano, algumas manifestações, mesmo descaracterizadas, empobrecidas em seu rito, estiveram presentes na vida da cidade. È nítida na memória as figuras de Rei e Rainha da festa de São Benedito, como nítidos também são os cordões carnavalescos com as mesmas figuras.

As associações formadas em torno do batuque deram ensejo para a formação de blocos, de gente pobre e de maioria negra, contraponto ao corso das batalhas de confete e serpentina da elite, logicamente branca. Meio termo? Os mascarados; homens ou mulheres, vestidos de camisolão colorido, guizos nos tornozelos e mascaras que impedissem sua identificação na estrutura social.

Das senzalas, a preocupação de manter as agilidade e destreza durante o cativeiro, prevendo situação de fuga. Na cidade, durante o entrudo e quase sempre, para mente e corpo equilibrados, capoeira ou pernada ou rabo de arraia foi a solução.

Se houve necessidade do capoeira sorocabano proteger a apresentação do bloco ou do cordão, isso foi esquecido pelo tempo.

Vila Leão, mais tarde Vila Fiori, a região hoje denominada Jardim América, foram redutos de batuqueiros que formaram os Cordões dos anos 50/60. Vinte e Oito de Setembro, 3° Centenário (fundado em 54), foram cordões

O país que havia se proposto a "crescer cinqüenta anos em cinco" tomava contornos definitivos de urbanismo. Surgia no planalto central do Brasil a maior obra arquitetônica do século XX no país. Tempo de mudanças, da busca de homogeneidade ( como se isso fosse possível) pelo menos em comunicação.

È assim que o batuqueiro/sambista assiste sua família sofrer mais uma grande intervenção externa para abrir espaços a novos valores, todos ligados ao poderio financeiro. Se, relativamente, deu certo nos grandes concentrados urbanos, a situação econômica dos grupos nas cidades de médio e pequeno porte, não mudou.

O que mudou foi a questão estrutural de desfile, momento de glória do sambista. E agora o termo correto é esse, pois, no mínimo, instrumentos produzidos em série haviam sido introduzidos na rodas de samba; de há muito samba tinha deixado de ser coisa de ' no barro', classificando seus freqüentadores pela cor da pele e trocados no bolso. O caminho a ser percorrido e as duríssimas batalhas a serem vencidas continuaram as mesmas.

De qualquer forma, a Escola de Samba veio para ficar. Em Sorocaba é a 28 de Setembro a primeira e mais tradicional, sucedendo ao Cordão do mesmo nome que nasceu contendo integrantes da Vila Leão e sócios da Sociedade Cultural e Beneficente "28 de Setembro", na Rua Machado de Assis, 112, endereço do samba largamente conhecido na região.

Nos anos 80 desfilavam em Sorocaba e região as Escolas de Samba '28', Kal manequins, Brasil do Amanhã (do Bairro Júlio de Mesquita F°) Unidos do Cativeiro ( Jardim São Marcos), Estrela da Vila ( Vila Fiori), III Centenário ( Jardim América) e Show Brasil ( Vila Santana).

Nesta sessão quando evocamos nomes ligados à cultura nacional do samba de Sorocaba queremos lembrar de Lazinho, Vadeco e Zuza na organização; Claudionor Soares, Lazinho, Mestres de bateria, Ude,  Claudete ( Kal), Cida Parreira, Dona Olga, Cida Pires, Dona Mara, passistas, porta-bandeiras, tias/ mães responsáveis pela coesão e entusiasmo dos grupos; Arruda, Luiz Rodrigues ( o Luizão da Cativeiro) nossos capoeiras, Dito Vassourinha como sempre será lembrado Benedito da Conceição Alves, os carnavalescos Zezinho Lima e Paulo Pires, para citar alguns e certamente cometer injustiça com muitos. Perdoem-me. Um dia, falaremos das Escolas de Samba.

Concomitante às Escolas de Samba houve um movimento em Sorocaba criado para ser a abertura da festa, sem pompa ou circunstância, mas que atraiu sempre um grande número de foliões. Anárquica, a saudável democracia vivida no Bloco do Sabugo era mais que arrancada, um teste de resistência, pois saia do Bar, na Av. Pereira Inácio, subia a Nogueira Martins, a São Bento, rumo à sede da SCB 28 de Setembro.

Nos anos noventa surgiu a Banda do Depois, consolidada por agitadores culturais no Bar comandado por Nilo Seifert.

A Banda do Depois resistiu e sua perseverança frutificou. Hoje além dela outros blocos, todos eles levando um grande público às ruas.

Parece-nos que estamos longe de construir a estrutura que pede a Escola de Samba sem que se esteja concorrendo para que brechas de mau uso do dinheiro público fiquem em aberto ou que elas recebam subvenção condigna. '

Não vamos polemizar o momento em que nos preparamos para participar, assistir e avaliar a culminância do trabalho de um ano de parte a parte. O importante e estaremos vivendo o melhor amálgama de culturas mundo. O carnaval brasileiro.

* Membro Efetivo da Academia Sorocabana de Letras, titular da Cadeira nº 24 que tem como Patrono Lima Barreto. Palestra apresentada no 1º Encontro Marcos César de Pesquisas e Debates de Festejos Populares, realizado a 16 de março de 2009, na sede da Academia.